Entenda Porque a Sua Pele é Reflexo do Seu Estado Emocional

Todos conhecemos muito bem os cinco sentidos: visão, audição, olfato, paladar e tato.

Estamos plenamente acostumados a compreender as mensagens que a visão, a audição, o olfato, e o paladar nos oferecem; não temos dificuldade em enxergar coisas e objetos, em ouvir música, em distinguir o cheiro agradável de um perfume ou saborear uma deliciosa comida.

Porém, e o sentido do tato?

Estamos aptos a perceber, reconhecer, compreender as mensagens que nos são transmitidas através desse importante sentido?

A pele é o órgão responsável pelo tato. É o maior órgão do corpo humano, realizando várias e complicadas funções como proteção, manutenção da temperatura, defesa imunológica.

Porém mais do que isso, a pele é por excelência nosso envoltório, o sistema que delineia nossa individualidade. A pele é que nos põe em contato com o mundo que nos cerca, com os outros e com o meio ambiente.

Para se comunicar, o mundo ocidental optou pelos “sentidos da distância”, a visão e audição. O tato, que é um “sentido de proximidade”, foi colocado em segundo plano.

Esquecemos quão é importante é o contato, o toque, a carícia autêntica para o ser humano. Não pode existir saúde se não utilizarmos plenamente todos os nossos sentidos.

Um indivíduo pode permanecer uma vida inteira privado de enxergar, de ouvir, desprovido de olfato e do paladar. Porém, não conseguirá sobreviver com saúde (orgânica ou psíquica) se não for permitido o desempenho das funções de sua pele.

Não permitindo o desenvolvimento pleno da função sensorial da pele, acabamos relevando a importante relação entre nosso sistema psíquico (principalmente sentimentos e emoções) e nossa pele.

É obvia essa relação direta entre mente e pele quando lembramos expressões como “arrepiar de susto”, “ficar vermelho de vergonha”, “suar frio de medo”, “ficar com os cabelos brancos de preocupação ou tristeza”.

 

Mas essa relação vai muito mais além do que os exemplos citados. Desde Hipócrates, o pai da medicina, já se estabeleceu que o corpo é governado pelo espírito. Com Descartes no século XII foi elaborada a ideia cartesiana de “mente separada do corpo” no intuito de encontrar uma solução conciliatória com a igreja; porém o próprio Descartes prescrevia repouso, alimentação e meditação para certos pacientes.

Recentes descobertas científicas como as endorfinas do tecido cerebral, o estabelecimento do sistema neuro-imune-cutâneo-endócrino reafirmam a intrincada relação entre mente-pele.

Vale lembrar que o sistema nervoso central e o tecido cutâneo possuem uma origem embriológica comum, tecido ectodérmico, reforçando ainda mais a ideia de íntima relação entre eles.

A compreensão das ligações entre mente e pele é difícil
para os médicos em geral.

O médico ocidental possui uma mentalidade tecnicista, encarando o corpo humano como uma máquina e suas desordens (as doenças) como situação decorrentes de desarranjos anatômicos, fisiológicos ou bioquímicos de origem genética ou adquirida, negligenciando os desarranjos psíquicos e suas consequências.

Na prática dermatológica reconhecemos algumas situações que claramente expõe a comunicação entre a mente e a pele.

O mais comum é observar a piora clínica de doenças cutâneas genuínas quando o paciente está sob stress psíquico.

Tais doenças são psoríase, urticária, dermatite atópica, acne, dermatite seborréica, herpes, vitiligo, dentre outras. Nessas doenças, os fatores emocionais são tidos como importantes variáveis no aparecimento, agravamento, melhora e recidiva das mesmas.

Outra condição vista na rotina dermatológica são casos onde lesões na pele não são na realidade genuinamente cutâneas, mas sim auto-induzidas, ou seja, produzidas pelo próprio paciente por doença primária psíquica. São condições mais raras e que exigem muita habilidade do médico no manejo desses pacientes.

Por outro lado, algumas doenças dermatológicas incapacitantes ou desfigurantes afetam em grau variável a vida social e os aspectos emocionais do doente, podendo gerar quadros de depressão, ansiedade ou fobia social.

Exemplos dessas doenças são vitiligo, psoríase, acne, queda de cabelo, sudorese excessiva, e até mesmo afecções estéticas como a celulite.

Como o próprio médico tem dificuldade de compreender a completa dimensão da influência da mente sobre doenças cutâneas, ficará muito difícil para o paciente compreender que mensagem, qual sentido intrínseco que aquela lesão cutânea carrega vindo do seu inconsciente, do seu psiquismo.

Para o médico, um recurso inteligente seria estabelecer analogias, comparações com outras doenças em outros órgãos e sistemas que conhecidamente possuem influência mental, por exemplo gastrite, úlcera, diarréia, dor de cabeça.

Ajudando o paciente a perceber que a doença é um “sinal” de que algo na sua essência não anda bem, um “símbolo” de algum conflito que ele pode descobrir e reconhecer, iremos possibilitar a descoberta da causa real da doença e aumentar as chances de cura ou de melhora. Fica assim, então, cumprido o papel pedagógico da doença: mostrar que há algo errado e possibilitar um caminho para a mudança.

Fazendo isso, estaremos fugindo do risco de passar anos a fio tratando somente de um sintoma, tentando nos livrar desse mensageiro, sem conseguir compreender sua verdadeira mensagem que pode ser fundamental para nossas vidas e nosso desenvolvimento.

Nossa pele é um campo fértil para a manifestação
de sentimentos, arquétipos, desejos.

Simbolicamente, ela representa nossa gregaridade, quer dizer, nossa necessidade genuína de relacionarmos com o outro, seja ele o outro que cada um carrega dentro de si inconscientemente ou outro na definição mais óbvia, o indivíduo próximo a nós.

Mas esse campo é ao mesmo tempo fértil e obscuro; a maneira como a pele nos “fala” é codificada, e “ler” ou “escutar” nossa pele é tarefa que exige esforço contínuo e atenção constante.

Assim nossa pele pode “pedir” aproximação, contato, aconchego, toque e carinho, pode pedir distanciamento, objetividade, discriminação; pode expressar ambiguidade, turbulência tão típicos da adolescência; e finalmente falar da busca do par simétrico através sensualidade, sexualidade.

No extremo da doença, pode-se interpretar certos sintomas cutâneos como “mensagens” da psique do paciente, como por exemplo a sensação de coceira em situações de frustrações, raiva e culpa não expressas, assim como poderosas necessidades de amor reprimido. O ato de coçar pode ser expressão sintomática desses sentimentos.

:: O tempo

Além de codificar nossa emoções e sentimentos, nossa pele decide e expõe para nós mesmos diante do espelho e para os outros algo que insistimos em negar: o tempo. Quer dizer, nenhuma outra característica ou órgão do corpo do corpo humano é capaz de revelar, com facilidade, os anos vividos, as experiências adquiridas, as dores sofridas. O envelhecimento é visualizado, por excelência, na pele da pessoa.

Tentamos incansavelmente esquecer que não somos eternos, que não somos mais tão jovens quanto desejamos, que os anos passam muito depressa e que estamos, ao invés de viver, vendo a vida passar.

E quando nos olhamos no espelho e observamos manchas, rugas, fios brancos de cabelo, é como se uma parte de nós quisesse dizer “veja, você mudou”! Não é mais o mesmo! O que vai fazer a respeito disso?”.

Algumas pessoas tentam a todo custo (traduzido por plásticas, cremes, injeções, etc.) camuflar os sinais óbvios que a pele insiste em mostrar. Esquecem-se o que há por detrás desses sinais: a maturidade, a experiência, a plenitude do saber.

Acredito que existe tanta beleza na garota de 15 anos quanto na mulher de sessenta, apenas são belezas diferentes, essências diferentes.

 

>> O “segredo ” da saúde da pele está firmado na cumplicidade, na sintonia do nosso espírito e a linguagem que ela nos fala a todo instante.

E essa integração entre mente e pele, que fatalmente irá resultar numa pele saudável e mais bonita, depende da maneira que nos relacionamos com ela.
Aprender a cuidar da nossa pele, escolher sabonetes, cremes, roupas, ou qualquer outra coisa que fique em contato direto com ela, e ter prazer em usá-los é parte essencial desse relacionamento. Mas não se restringe a isso. Aprender a se tocar, “sentir na pele as emoções”, e principalmente aprender a tocar o outro e aceitar a carícia em troca é fundamental para qualquer ser humano. Enquanto negligenciarmos esse sentido essencial do nosso corpo, seremos criaturas frias, solitárias, trancadas dentro de um envoltório que poderia ser infinito mas que acaba virando uma prisão.

 

Texto da Dra. Adriane Cruvinel
Médica especializada em Dermatologia pela Unicamp,
Membro da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Médica assistente da disciplina de Dermatologia da Unicamp

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